0

Dinheiro: Vilão ou Vítima?

Dinheiro traz felicidade?

O mundo seria mais justo se o dinheiro não existisse?

Já estudamos brevemente as origens do comércio, a criação do dinheiro e sua importânca para o desenvolvimento das civilizações no artigo Dinheiro pra quê? e agora é hora de abordarmos o tema numa esfera mais voltada para a ética e a filosofia.

A invenção do dinheiro é apontada por muitos como sendo uma das causas-raízes das desgraças e injustiças sociais e econômicas que assolam o mundo, mas a partir de quê momento o dinheiro tirou a capa vermelha e tornou-se o vilão da história?

O outro lado da moeda

A partir da massificação do uso do dinheiro pelas civilizações ao longo da História e conforme as Economias dos países foram se atrelando completamente às suas respectivas moedas, consequentemente começou a surgir uma série de problemas relacionados aos mecanismos associados ao dinheiro:

earning-interest-on-your-money-360x360Juros: referem-se à modalidade de lucro sobre a atividade de empréstimo monetário,
que se baseia na cobrança, no ato da quitação da dívida, de um valor adicional ao montante inicial emprestado.

Este conceito parece trivial e justo, afinal se alguém se dispõe a emprestar um bem próprio a outrem, é natural que haja uma recompensa por este “serviço”. Há, porém, uma armadilha oculta neste conceito; enquanto a ideia convencional de trabalho é baseada na criação de valor a partir do esforço humano para transformação de bens, os juros são retro-alimentados e crescem por si só ao longo do tempo, sem que haja interação humana.

Tomemos como exemplo uma prestação de serviço de jardinagem. O jardineiro é contratado, faz uso de suas técnicas e esforços para desempenhar um trabalho no jardim, é pago (antes ou depois) pelo contratante e está terminada a transação.

Agora, vejamos o caso do empréstimo. A instituição financeira “presta o serviço” de emprestar o dinheiro a alguém, mas não é exatamente por este serviço que será paga ao final, mas sim uma quantia proporcional ao montante emprestado e ao tempo decorrido até a quitação da dívida. Note que o esforço de se emprestar R$1,00 por 1 mês é o mesmo de se emprestar R$1 milhão por 1 ano (desprezando-se, é claro, o esforço físico de se carregar uma mala de dinheiro tão pesada), porém os lucros em cada empréstimo serão bastante diferentes.

Surge aí um conflito ético, pois os juros “criam valor” por si mesmos de forma abstrata (e automática) enquanto que os preços dos produtos e serviços são paupáveis, pois são diretamente atrelados ao valor agregado pelo trabalho humano. Enquanto investir dinheiro em novas tecnologias e processos mais eficientes estimula a produtividade, o lucro a partir dos juros é, por sua natureza, contra-produtivo, pois estimula o acúmulo de dinheiro sem agregação de valor à sociedade.

É por isso que a taxa de juros de um país normalmente possui relação inversa ao seu ritmo de crescimento; pois quanto maiores são os juros, mais rentáveis e atrativos são os produtos financeiros em comparação aos investimentos diretos no setor produtivo.

InflationInflação: refere-se à alta dos preços dos produtos e serviços (deflação é o oposto). Uma vez que os preços sobem, o dinheiro que alguém possui se torna menos capaz de pagar por produtos e serviços, então o efeito imediato da inflação é a perda do poder de compra da moeda.

Há vários agentes econômicos causadores deste efeito, e boa parte deles pode ser compreendida pela própria Lei de Oferta e Demanda; por exemplo, em momentos de prosperidade econômica em que eventualmente ocorre um consumo desenfreado, a oferta, que depende de investimentos e expansão nos meios de produção, tem mais inércia, isto é, leva mais tempo para acompanhar o surto na demanda, tornando os produtos repentinamente mais escassos e elevando os preços.

Para controlar os efeitos nos preços causados pela variação brusca de demanda, os Governos podem lançar mão de medidas macro-econômicas, tais como: aumento/diminuição da taxa básica de juros (chamada de SELIC no Brasil), para frear/estimular o consumo; investimento em infraestrutura e incentivos fiscais à indústria, para estimular a produção; entre outros. Deixemos para abordar estes mecanismos com maior profundidade numa futura oportunidade.

Dinheiro criado do nada: um específico agente causador de inflação é particularmente polêmico e motivador de debates éticos: o aumento da disponibilidade da moeda.

A riqueza de um país não é representada pela quantidade de papel moeda disponível em circulação, mas sim por sua riqueza paupável, como recursos naturais, infraestrutura de transportes, matriz energética, capacidade industrial instalada, potencial humano etc.

Antigamente, o papel moeda impresso era lastreado em ouro ou outros bens, ou seja, todo o dinheiro em circulação possuía um depósito nos cofres do Governo que garantisse o valor da moeda. Após a criação do sistema monetário moderno, não existe mais lastro desta forma objetiva e o dinheiro, seja ele físico ou escritural (eletrônico), é criado a partir “do nada”.

Money from nowhere. magic. 3d

Money from nowhere. magic. 3d

Isso mesmo, o dinheiro é criado do nada pelos bancos comerciais em conjunto com o Banco Central a partir de uma manobra entitulada sistema bancário de reservas fracionárias, cuja principal finalidade é literalmente multiplicar o dinheiro disponível para empréstimos, de modo que apenas uma parte dele precise existir de fato. Esta talvez seja a maior fraude da história do sistema monetário mundial e o mais curioso é que pouquíssimas pessoas sabem disso.

Funciona assim: a cada quantia depositada em um banco, mantém-se uma fração de reserva (ou “compulsório”) e o restante pode ser emprestado a outro cliente que, por sua vez, pode redepositar ou pagar por algum bem ou serviço a outra pessoa, que vai depositar o que recebeu neste ou em outro banco, que vai guardar a fração de reserva, emprestar o restante e assim sucessivamente. Esta fração de reserva varia para cada país, e no Brasil atualmente é de 28%.

Por exemplo, suponhamos que um cliente deposite R$100 no banco A, que vai reservar R$28,00 e emprestar o restante a outro cliente que vai depositar no banco B, que vai manter o compulsório e emprestar o restante a outro cliente, que vai depositar no banco C e assim por diante. Vejamos a progressão deste mecanismo:

Banco Depósito Reserva Empréstimo
A 100,00 28,00 72,00
B 72,00 20,16 51,84
C 51,84 14,51 37,32
D 37,32 10,45 26,87

Se continuarmos esta sequência ad infinitum, os bancos terão emprestado R$257,14 além dos R$100,00 na conta do primeiro cliente. Ou seja, terá criado, ou melhor, multiplicado o dinheiro inicial por 3,57. Este é o “multiplicador monetário”, que pode ser calculado como m = 1/R, onde R é a taxa de reserva de cada país (Brasil: 1/0,28 = 3,57). E se o dinheiro disponível aumenta sem que as riquezas concretas tenham-no acompanhado, a única maneira de equilibrar a balança é pelo aumento nos preços.

Em resumo, o aumento da disponibilidade da moeda, seja na emissão física pelo Banco Central, seja na sua multiplicação pelas reservas fracionárias, causa aumento de preços (inflação) e consequente redução do poder de compra da moeda que, na prática, é um assalto aos bolsos dos indivíduos da sociedade.

Origem de todos os males?

Juros e inflação são apenas exemplos entre os muitos problemas diretamente relacionados ao dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro foi essencialmente criado como uma ferramenta para facilitar as atividades mercantes, como vimos no artigo Dinheiro para quê?.

Toda ferramenta pode ser usada da maneira correta, para a qual foi concebida, ou da maneira errada, que pode trazer maus resultados ou até causar danos às outras pessoas. Assim como qualquer ferramenta criada pelo Homem, o dinheiro pode ser usado como utensílio ou como arma. Tudo depende das intenções das pessoas que o manuseam.

fonte: http://static2.businessinsider.com/image/523cc5f7eab8ea1655cb58b9/5-career-lessons-from-breaking-bad.jpg

As injustiças decorrentes de ambição e poder seriam mesmo consequências da simples existência do dinheiro?

Ou seria o caso de o egoísmo e a desonestidade já serem inerentes ao ser humano, que tão somente faz uso dos recursos que lhe estão disponíveis para por em prática suas más intenções?

Uma faca é um artefato muito útil para culinária, por exemplo. Mas se uma pessoa é assassinada a facadas, a culpa é da faca? Para que se previna que outras pessoas sejam mortas a faca, o mais correto é destruir todas as facas ou investir nas causas-raízes como policiamento, educação e justiça social?

No caso do dinheiro, cabe aos Bancos Centrais e sobretudo, aos Governos a regulação e atuação direta sobre as atividades econômicas de um país, de modo a impedir ou pelo menos atenuar estes e tantos outros problemas injustamente associados ao dinheiro em si, mas que de fato são causados pelas pessoas.

Entretanto, ironicamente, para que estas iniciativas sejam tomadas, é preciso que outras tais pessoas, os governantes, tenham real intenção de que o sistema econômico mude.

Eduardo Bortolotte